Rama Duwaji e a Política Estética
- nuprima

- 15 de nov. de 2025
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Gabriela Morais Rigo
Na noite histórica em que Zohran Mamdani foi eleito como prefeito de Nova York, o olhar das pessoas também se voltaram à Rama Duwaji que além de ser a primeira-dama de Nova York, também é artista visual e ilustradora. Enquanto os jornais registravam a eleição histórica de Mamdani, primeiro muçulmano a assumir o cargo de prefeito na cidade, o conjunto de Duwaji, silenciosamente, tornou-se um comentário visual sobre identidade e política.
O conjunto escolhido pela artista síria-americana, uma blusa de denim recortada a laser e uma saia midi de renda e veludo, criado pelo designer palestino-jordaniano Zeid Hijazi, conhecido por uma estética que mistura referências de civilizações antigas e góticas, além de adicionar elementos da cultura árabe. Hijazi, em suas coleções, insinua uma moda experimental e afetiva, ou seja, o corpo serve como memória e o tecido como narrativa histórica marcada por uma reconstrução contínua.
A escolha da modelagem e do design foram feitas de maneira a ultrapassar a ideia de dimensão estética. Ao vestir um discurso, optando por um designer árabe, ela cria e manifesta um gesto de reinscrição de um espaço dominado pela visualidade eurocêntrica e normativa. Sem recorrer ao exotismo, o conjunto de Duwaji traz subjetividade cosmopolita e diaspórica, afirmando sua origem e propondo uma maneira alternativa de ocupar o espaço político, pela arte e subjetividade entre a forma e a ideia.
Como artista, Duwaji explora temas ligados à vida urbana, feminilidade e multiculturalidade. Agora como primeira-dama, seu gesto foi ampliado para o campo do visível ao desafiar a estética tradicional, comum entre as primeiras-damas, trazendo uma imagem de pertencimento e afeto. Em uma atualidade na qual a moda, muitas vezes, é reduzida somente ao ato de consumo, Duwaji é um exemplo da moda de potência simbólica. “Vestir-se” se transforma em narrativa: mesmo sem palavras, ela mostra com clareza sua posição política escolhida.
A escolha de Duwaji por um conjunto criado por um designer palestino-jordaniano não é à toa, ela se comunica com sua trajetória como artista, manifestando que a escolha foi especialmente pensada, se tornando meio de debate sobre identidade e poder. Na imagem de Rama Duwaji, há um discurso fronteiriço do que é visto e dito.
Talvez, este possa ser um meio de debate para reimaginar o espaço público a partir da arte e da estética, principalmente, quando estamos falando de uma clara narrativa que desafia o decoro tradicional em um momento em que as narrativas árabes ainda são invisibilizadas e estigmatizadas no Ocidente.




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