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Quais vidas merecem luto? As 165 meninas iranianas mortas por Israel e Estados Unidos

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Natália Ochôa


Madrugada de 28 de fevereiro de 2026. O território iraniano é atacado por via aérea e marítima. Segundo informações do G1, as cidades de Teerã, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah foram atingidas, gerando retaliação por parte do governo dos aiatolás. Bases estadunidenses no Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Emirados Árabes Unidos foram atingidas. No momento em que escrevo esta breve análise, mais 550 mortos do lado iraniano são contados. No primeiro dia de conflito, uma escola de meninas foi atingida por mísseis. Segundo reportagem da revista Fórum (2026), o ataque perpetrado pelos EUA e por Israel, atingiu cidade de Minab, no sul do Irã, onde se localiza uma escola de meninas. O local possui um caráter estratégico devido a proximidade com o estreito de Ormuz, por onde se escoa grande parte da produção do petróleo da região, através do Golfo Pérsico.


No mesmo dia em que se iniciaram as hostilidades, o jornal Estadão publicou um editorial, no qual afirma que “O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá” (Estadão, 2026). Contudo, não se pode deixar de mencionar o ataque a escola de meninas em Minab. Segundo a Agência Brasil (2026), até 1º de março, a contagem de meninas mortas em decorrência desta incursão chegou a 153. Na mesma reportagem, consta a declaração da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), afirmando que a morte de estudantes em seu espaço de estudo constitui uma grave violação da proteção que o direito internacional humanitário confere, colocando em risco e comprometendo o direito à educação. Com isso, chega-se a seguinte indagação: quando foi que a segurança humana deixou de importar em momentos de conflito? Vendo editoriais como os do Estadão, também é possível pensar: as famílias dessas meninas deveriam, então, agradecer pelas suas vidas ceifadas da maneira que foram?


É importante deixar claro que o ponto aqui não é direito a defesa de um ou direito de possuir armamento nuclear de outro, mas quem é o mais afetado em um conflito como esse e quais as consequências da escalada de algo dessa magnitude. É sabido que o Irã possui um histórico de violação de direitos humanos, principalmente no que toca a questão dos direitos da mulher. Contudo, dados da UN Women de 2026 mostram que mulheres iranianas com mais de 15 anos são mais alfabetizadas do que os homens (85,5% para 80,8%). Além disso, os índices de crianças fora da escola são bastante baixos, sendo 2,3% para meninas e 1% para meninos. 


Também é essencial não esquecer que até para se fazer uma guerra é necessário seguir regras. Quando a vida de civis é colocada em risco (principalmente aquelas mais frágeis em um regime que já viola direitos), é quando o mínimo de civilidade não está mais presente. Quando Judith Butler (2011) fala sobre a vida precária, mais do que a sobre a existência, a autora nos faz pensar sobre as vidas que teriam direito o luto. Teriam os civis iraniano que falecem durante os conflitos o direito de ter suas perdas choradas? A página HQ Sem Roteiro (@hqsemroteiro) postou um vídeo tratando da desproporcionalidade atribuída a dor de determinados grupos em relação a outros, destacando a maior importância que se dá a vidas brancas do que a não brancas, retirando a humanidade destas últimas. O vídeo também destaca a relação colonizador versus colonizado, que contribui diretamente para a perpetuação dessa dinâmica. Eduard Said (2016) já nos adverte disso ao mostrar da construção de um Oriente bárbaro, atrasado e que precisa da benevolência do colonizador ocidental, que vai levar o desenvolvimento e a civilização para a região. 


Seguindo essa mesma linha, muito se fala sobre a necessidade de salvação da mulher muçulmana por esse mesmo colonizador. Lila Abu-Lughod (2012) trata disso discorrer sobre o olhar do feminismo civilizatório. Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas (onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos) é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las? Podemos notar três aspectos aqui sobre a imposição dos valores coloniais, que a imposição do que é ser civilizado, o que é ser mulher de acordo com um padrão aceitável e uma religião que não deve se diferir muito daquela que é mais amplamente aceita.


Tais formas de silenciamento ou de criação de estereótipos ainda se perpetuam no Ocidente, fazendo com que a humanidade dessas mulheres seja negada de forma sistemática. Afirmar que, por ser um pária, “ninguém vai chorar pelo Irã”, legitima através do discurso, muito mais do que um conflito ou derrubada de regime, a negação da humanidade e do direito de existência. Decidir quais vidas são dignas de luto torna-se um reflexo da dessensibilização com relação à dor do outro. As questões de gênero permeiam a sociedade iraniana e existem mulheres que tem orgulho dessas raízes. Destruir uma parcela da população, ainda mais aquela mais afetada pelas questões apontadas ao longo desta análise, deveria gerar a indignação internacional na mesma proporção, não justificando tais violações do direito internacional.


Referências

ABU-LUGHOD, Lila. As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação?: reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus outros. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 20, n. 2, p. 451-470, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/yPdFtbPfpQCHyDmh6BjqQDx/?lang=pt. Acesso em 03 mar. 2026.

ATAQUE ao Irã: entenda o que aconteceu e o que pode vir agora. São Paulo, G1, 02 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/02/ataque-ao-ira-entenda-o-que-aconteceu-e-o-que-pode-vir-agora.ghtml. Acesso em 02 mar. 2026.

AZENHA, Luiz Carlos. Vídeo: Irã denuncia morte de 148 em ataque a escola de meninas. Revista Fórum, Santos, 28 fev. 2026. Disponível em: https://revistaforum.com.br/global/ira-denuncia-morte-de-36-meninas-em-ataque-no-estreito-de-ormuz/. Acesso em 03 mar. 2026.

BUTLER, Judith. Vida precária. Contemporânea: Revista de Sociologia da UFSCar, São Carlos, v. 1, n. 1, p. 13-13, 2011. Disponível em: https://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/18. Acesso em 03 mar. 2026.

CARVALHO, Anna Karina de. Irã eleva para 153 estudantes mortas em ataque a escola. Agência Brasil, Brasília, 01 mar. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-03/ira-eleva-para-153-estudantes-mortas-em-ataque-escola. Acesso em 02 mar. 2026.

ISLAMIC Republico of Iran. New York: UnWomen, 2026. Disponível em: https://data.unwomen.org/country/iran-islamic-republic-of. Acesso em: 03 mar 2026.

NINGUÉM vai chorar pelo Irã. Estadão, São Paulo, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/ninguem-vai-chorar-pelo-ira/. Acesso em: 02 mar. 2026.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2016.

@HQSEMROTEIRO. “Ninguém Vai Chorar pelo Irã”. Instagram, Fortaleza, 01 mar. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/reels/DVWpRuKgY6r/. Acesso em: 02 mar. 2026.

 
 
 

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