A lógica estratégica por trás da escalada iraniana
- nuprima

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Dr. Issam Menem
A ofensiva coordenada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada na madrugada do dia 28 de fevereiro, alterou drasticamente o cenário geopolítico da região e levou a uma escalada militar sem precedentes nas últimas décadas.
À primeira vista, a ação militar iraniana de regionalizar o conflito atacando alvos em territórios de países árabes pode parecer irracional ou até suicida. No entanto, quando observada dentro de um contexto estratégico mais amplo, ela pode representar uma escolha calculada.
Em situações de forte assimetria, nas quais um Estado enfrenta adversários militar e economicamente superiores, as opções tradicionais tendem a ser bastante limitadas. Manter o status quo pode significar aceitar um ambiente permanentemente desfavorável, com custos crescentes e poucas perspectivas de mudança. Nesses casos, a escalada não busca necessariamente vencer militarmente no curto prazo, mas alterar as condições do jogo que, até então, vinham definhando as capacidades iranianas.
Desde o início da ofensiva contra o Irã, sete países árabes foram atingidos pelas forças armadas iranianas: Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Iraque, Jordânia e Arábia Saudita. Os ataques incluíram diferentes tipos de estruturas militares norte-americanas, mas também aeroportos, portos e hotéis de alto padrão.
Ao atingir esses países, o Irã busca, de forma ousada e arriscada, elevar os custos domésticos desses governos ao afetar diretamente suas economias, especialmente nos setores de energia, turismo e aviação, produzindo, assim, pressão social e política. No cálculo iraniano, espera-se que esses governos passem a ter incentivos para se engajar diplomaticamente, pressionar Washington e buscar mediação.
O Irã estaria, portanto, deliberadamente ampliando o teatro do conflito com o objetivo de converter a neutralidade formal de determinados Estados árabes em envolvimento material, transformando um confronto originalmente bilateral (Irã × Estados Unidos) em uma questão sistêmica. Ao expandir as externalidades negativas da guerra e atingir países que hospedam infraestrutura estratégica norte-americana, Teerã reclassifica esses atores de terceiros observadores para partes afetadas, redistribuindo os custos do conflito no âmbito regional.
Trata-se de uma estratégia de coerção indireta baseada na regionalização intencional da crise e na socialização de custos, por meio da qual a inação deixa de ser politicamente sustentável, e o engajamento diplomático passa a se tornar a alternativa racional.
Em Arms and Influence (1966), Thomas Schelling argumenta que o poder de infligir dano é frequentemente comunicado por meio de alguma demonstração de sua execução. Seja por meio de uma violência deliberada para induzir uma resposta irracional, seja por meio de uma violência fria e premeditada para persuadir o adversário de que a ameaça é crível e repetível, o que importa não é a dor ou o dano em si, mas sua influência sobre o comportamento de outrem.
Schelling sustenta que é a expectativa de violência futura que extrai o comportamento desejado, se é que o poder de infligir dano é capaz de extraí-lo. Para explorar a capacidade de ferir e causar danos, é necessário compreender o que o adversário valoriza e o que o amedronta. No caso dos países do Conselho de Cooperação do Golfo, os ataques iranianos impactam diretamente a imagem de um oásis politicamente estável, dotado de ampla e sofisticada infraestrutura turística internacional, consolidada como destino privilegiado de grandes estrelas da indústria cultural global, empresários e multinacionais. Além disso, as hostilidades já impactaram a base econômica destas monarquias ao alvejar estruturas críticas de gás e petróleo das monarquias.
A criação deliberada de risco, geralmente um risco compartilhado, caracteriza uma disputa pela disposição de assumir riscos. Trata-se de colocar em marcha uma dinâmica que pode fugir ao controle, iniciando um processo que carrega consigo a possibilidade de um desastre não intencional.
O risco é intencional; o desastre, não. Não se pode iniciar um desastre certo como forma proveitosa de exercer pressão coercitiva sobre alguém, mas pode-se iniciar um risco moderado de desastre mútuo, desde que a conformidade da outra parte seja viável dentro de um período suficientemente curto para manter o risco cumulativo dentro de limites toleráveis.
Em última instância, contudo, a mesma lógica que pretende converter neutralidade em pressão pode produzir o efeito oposto para o Irã, ao correr o risco de transformar terceiros afetados em coalizões adversárias e consolidar um alinhamento ativo ao lado de seu rival. Trata-se, portanto, de uma estratégia de elevado potencial de retorno, mas igualmente de alto risco estratégico.




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