Na propaganda, o Irã tomou a dianteira
- nuprima

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Por Denise de Rocchi
Com inteligência artificial, vídeos de propaganda acirram a disputa na guerra no Irã.
A difusão de ferramentas de inteligência artificial generativa está viabilizando um novo tipo de disputa durante conflitos armados, com a produção audiovisual em velocidade e escala nunca vistas. Um dos principais riscos é a manipulação da opinião pública, a partir de vídeos que retratam situações falsas com tal grau de realismo que podem passar por verdadeiros, o que tem ocorrido na guerra no Irã. Sem negar a importância dessa discussão, quero destacar aqui o impacto político de outro tipo de vídeo viabilizado pelo uso de IAs como parte de campanhas de propaganda.
Com uso da inteligência artifical generativa, tanto pessoas quanto governos tem criado animações e vídeos de humor, reagindo a situações relacionadas a guerra quase em tempo real. A consultoria estadunidense Cyabra (1), que tem em seu portfólio serviços para “ajudar agências governamentais a detectar desinformação, operações de influência estrangeira, representações, deepfakes e conteúdo sintético”, calcula que centenas de vídeos de propaganda iraniana foram vistos mais de 145 milhões de vezes no primeiro mês de conflito.
A preocupação com a perda do controle da narrativa fica evidente pelo crescente volume de reportagens abordando o assunto em publicações tradicionais dos Estados Unidos, como New Yorker, Forbes e Time, algumas delas questionando por que tais conteúdos não foram bloqueados pelas redes sociais. No início de abril, o Departamento de Estado ordenou a seus embaixadores que atuassem com rigor contra “operações de influência estrangeira” (do Irã, China e Rússia), bem como decidiu retomar ações de diplomacia pública que haviam sido cortadas no ano passado, como as transmissões da Voz da América.

Com uso de uma das diversas ferramentas de IA disponíveis no mercado, até uma pessoa sozinha, em casa, pode produzir um vídeo em pouco tempo. Quando a tecnologia é operada por uma equipe com algum conhecimento e mais recursos, os resultados sao ainda melhores. Então por que o governo dos EUA, país de origem de várias empresas que desenvolvem esta tecnologia e com larga experiência em propaganda, não está vencendo esta batalha digital?
A resposta pode estar na forma e no conteúdo adotado pelos iranianos, que copiaram padrões estéticos com os quais o público ocidental está familiarizado. Entre os vídeos mais populares, estão as animações no estilo Lego para criticar adversários, em especial o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Outros elementos explorados foram paródias tendo o rap como trilha sonora e as referências ao escândalo Epstein, tema de grande interesse nos EUA. Embora as cenas sejam criadas por computador, fazem menção a acontecimentos reais (e incômodos para o adversário) para construir uma narrativa de denúncia da hipocrisia e enfraquecer o criticado. Ataques a símbolos norte-americanos, como a Estátua da Liberdade ou a Casa Branca, também foram encenados. Um dos vídeos menciona guerras que os Estados Unidos conduziram contra várias nações ao longo da história, para enquadrar a resposta iraniana aos ataques sofridos como uma “vingança por todos”, slogan apresentado no final do material. Já a contra-propaganda dos EUA produziu algumas peças que emulam jogos de video-game, tentando destacar a força e superioridade militar. Esta abordagem sofreu críticas internamente por ignorar o custo humano e dessensibilizar o público diante do conflito armado. Além disso, na conta oficial da Casa Branca nas redes sociais o que se sobressai são conteúdos feitos da forma tradicional, como vídeos curtos que intercalam cenas de seriados humorísticos antigos com falas de integrantes do governo justificando os ataques ao Irã, ou que mostram porta-aviões e mísseis em operação. Para além do formato, o conteúdo do que está sendo expresso é dissonante com a realidade: a operação no Irã, batizada de Epic Fury (fúria épica), não tem objetivos claros, nem resultados épicos para mostrar até o momento em que este texto foi finalizado (5 de abril).
Há ainda a falta de apoio da opinião pública, inclusive no âmbito doméstico, sem o qual é difícil haver engajamento com a comunicação oficial. Em pesquisa feita pelo instituto Pew Research, com mais de 3 mil entrevistados nos Estados Unidos, entre os dias 16 e 22 de março, 61% disseram desaprovar a guerra e 45%, que a operação não estava evoluindo bem. Na pesquisa do Ipsos, aplicada entre 25 e 27 de março, 66% dos norte-americanos ouvidos acham que o país deve se retirar da guerra, mesmo sem ter atingido nenhum objetivo. Tampouco na Europa, aliada de longa data, há opinião massiva favorável à guerra.
A rejeição às ações dos Estados Unidos não se traduz em apoio automático ao regime iraniano, porém este soube explorar essa fricção a seu favor na comunicação digital, usando humor e outros elementos que contribuem para que os vídeos tenham maior alcance nas redes sociais (2). Neste campo, o Irã é um desafiante que tem feito melhor uso da tecnologia, contornando o que seria uma vantagem estratégica dos EUA: ter acesso à tecnologia e capacidade de controle ou influência sobre as grandes corporações de mídia sediadas em seu território, para que o conteúdo publicado por elas privilegie os pontos de vista dos EUA.
(1) A empresa presta serviços a várias companhias transnacionais e a órgãos públicos, tendo o ex-secretário de Estado Mike Pompeo entre os membros do seu conselho.
(2) Alguns perfis que ajudaram a distribuir esses vídeos foram suspensos no Instagram e Youtube, acusadas de atuar de forma coordenada para promover estes conteúdos e burlar o algoritmo, o que seria uma violação dos termos de uso dessas empresas.
Referências:
Di Resta, Renée. When virality is the message: the new age of AI propaganda. Time, 2 de abril de 20026. Disponível em: https://time.com/article/2026/04/02/when-virality-is-the-message-the-new-age-of-ai-propaganda/
Ipsos. The Iran conflict. 2 de abril de 2026. Disponível em: https://www.ipsos.com/en/global-opinion-polls/the-iran-conflict
Murray, Connor. Pro-Iran Videos Flood Social Media—Including A Lego Version Of Trump—But X, Meta, TikTok Are Silent. Forbes, 28 de março de 2026. Disponível em: http://www.forbes.com/sites/conormurray/2026/03/28/pro-iran-videos-flood-social-media-including-a-lego-versions-of-trump-but-x-meta-tiktok-are-silent/
Myers, Steve Lee; Wong, Edward. Trump Officials Try to Fight Foreign Disinformation They Once Dismissed. New York Times, 1º de abril de 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/04/01/business/trump-foreign-disinformation-iran.html
Pew Research Center. Americans Broadly Disapprove of U.S. Military Action in Iran. 25 de março de 2026. Disponível em: https://www.pewresearch.org/politics/2026/03/25/americans-broadly-disapprove-of-u-s-military-action-in-iran/
Public Sector. Website Cyabra. Disponível em: https://cyabra.com/solutions/public-sector/
Tait, Robert. Iran social media strategy pivots to information war amid US-Israel attack. The Guardian, 22 de março de 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/mar/22/iran-social-media-strategy-information-war-us-israel-attack
The White House. Página do Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/whitehouse/
Wolf, Zachary B.. ‘Boom Boom’ US propaganda vs. the emerging Iran war reality. CNN, 12 de março de 2026. Disponível em: https://edition.cnn.com/2026/03/12/politics/propaganda-videos-iran-trump-hegseth-noem-analysis#:~:text=Not%20meant%20to%20be%20a,in%20the%20game%20of%20football.




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