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A miopia de explicar o Irã pela rivalidade EUA-China

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    nuprima
  • há 24 horas
  • 3 min de leitura

Dr Issam Menem


Desde o início da ofensiva contra o Irã, em 28 de fevereiro, a mídia tem concentrado grande parte de sua atenção nos desdobramentos do conflito na região. Em contextos de crises internacionais, pesquisadores e especialistas são frequentemente convocados para explicar o fenômeno, além de oferecer análises e projeções de cenários. No entanto, o que mais tem me chamado a atenção desde então é o recorrente vício analítico de sinólogos e americanófilos ocidentais em reduzir praticamente qualquer dinâmica de conflito à dualidade entre Estados Unidos e China, uma tendência que vem se reproduzindo na comunidade acadêmica e jornalística brasileira. A tendência de interpretar o conflito iraniano principalmente através da rivalidade sino - americana reproduz um padrão discursivo que desloca a agência estratégica do Oriente Médio para as grandes potências. Nesse enquadramento, o Irã deixa de aparecer como sujeito geopolítico relevante e passa a ser representado como mero teatro da competição global. Na formulação clássica de Edward Said sobre o orientalismo, o autor já alertava como o Ocidente “é o espectador, o juiz e o júri de todos os aspectos do comportamento oriental”.

A República Islâmica do Irã é de fato uma potência regional e não faltam elementos que possam embasar tal apontamento. Existem fatores históricos, demográficos, geográficos, econômicos e estratégicos que sustentam não apenas sua resiliência estratégica, mas sua projeção de poder. Herdeiro de uma civilização milenar, o país dispõe de uma base demográfica robusta, próxima de 90 milhões de habitantes, capaz de sustentar capacidades econômicas, militares e tecnológicas relevantes. Sua geografia ocupa uma posição central entre o Oriente Médio, a Ásia Central, o Cáucaso e o Sul da Ásia, situando-o em corredores estratégicos que historicamente conectaram grandes redes comerciais, e que hoje voltam a ganhar importância em projetos logísticos contemporâneos. A isso se soma a presença de vastos recursos energéticos entre as maiores reservas mundiais de petróleo e gás que reforçam seu peso estrutural na política energética global. Paralelamente, o Estado iraniano demonstrou notável resiliência ao longo de décadas marcadas por conflitos, como a Guerra Irã–Iraque, intervenções externas e extensos regimes de sanções internacionais. Esse percurso contribuiu para a consolidação de uma doutrina estratégica orientada pela busca de autonomia e capacidade de resistência, formulada sobretudo após a Revolução Iraniana de 1979, que combina oposição aberta ao cerco político e econômico liderado pelos Estados Unidos com a manutenção de uma autonomia ideológica e doutrinária em relação a parceiros relevantes, como China e Rússia, evitando assim uma dependência estratégica plena de qualquer grande potência.

Em sua notável obra, Said observa como as novas lideranças do Oriente aprenderam muitas lições com as dificuldades enfrentadas por seus predecessores e como, em grande medida, passaram a dispor de maior liberdade para moldar o futuro de seus países. Esses líderes já não precisam atuar na esperança de obter uma sentença favorável do júri invisível externo. Seu diálogo é com seus próprios concidadãos. Embora atores em desenvolvimento sejam, em geral, materialmente mais fracos, o teórico de Relações Internacionais Amitav Acharya defende que eles não podem ser simplesmente descartados como meros receptores de normas. Suas ideias e normas locais preexistentes passam a integrar uma matriz normativa híbrida mais ampla. Esses atores adaptam e produzem normas para expressar e promover suas próprias crenças, valores e aspirações. Esse processo ocorre, entre outros motivos, para contestar sua exclusão ou marginalização dos processos de formulação de normas em níveis mais elevados. Embora as disparidades globais de poder material não mostrem sinais de desaparecer, é necessário adotar uma concepção mais ampla de agência. Nas Relações Internacionais, a agência vai além do poder militar e da riqueza; ela é, portanto, simultaneamente ideacional e material.

Conflitos são eventos extremamente complexos e multifatoriais. E analisa-los apenas através da rivalidade entre grandes potências ignora a estrutura política regional. Amitav Acharya endossa que regiões possuem dinâmicas institucionais e normativas próprias; ou seja, atores regionais produzem ordem, não apenas respondem às grandes potências. Reduzir a política iraniana à disputa EUA–China apaga as dinâmicas estratégicas próprias do Oriente Médio. Esse mesmo movimento equivocado se reproduz quando esses analistas tentam explicar, de forma pobre e simplificada, o fenômeno do “Eixo da Resistência”, reduzindo-o a uma constelação de atores “proxies” da República Islâmica do Irã e desprezando, intencionalmente ou não, seu lastro social e ideológico: uma ampla aliança de governos, grupos armados, partidos políticos e movimentos sociais alinhados ideológica, política e militarmente.

Por fim, como sugerem Edward Said e Amitav Acharya, a política internacional não é feita apenas pelos centros globais de poder, mas também por atores que, mesmo sob condições materiais adversas, produzem ideias, normas e estratégias próprias. Enquanto essa agência continuar sendo ignorada, continuaremos entendendo menos o Oriente Médio e mais revelando os limites do nosso próprio olhar sobre a região.

 
 
 

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