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A reinvenção do Hezbollah ganhou asas



Dr. Issam Menem


Uma profunda reforma estrutural interna vem ocorrendo no Hezbollah, sobretudo a partir da percepção crescente de suas vulnerabilidades diante da guerra tecnológica contemporânea. O grupo passou a compreender não apenas o enorme avanço tecnológico de Israelense, mas também os limites operacionais de sua própria doutrina militar frente a um ambiente de vigilância permanente, superioridade aérea, inteligência em tempo real e integração avançada entre sensores, drones e sistemas de ataque de precisão.


Principalmente após a morte de seu secretário-geral, Hassan Nasrallah, em setembro de 2024, o Hezbollah passou a adotar uma postura estratégica marcadamente defensiva e de contenção no campo de batalha. Diante de um cenário amplamente desfavorável, tanto no plano militar quanto no contexto político doméstico libanês, o movimento concentrou seus esforços em absorver o impacto das pesadas ofensivas israelenses, preservar suas estruturas críticas e evitar um colapso operacional durante um período de profunda reorganização interna. Uma estratégia de sobrevivência e adaptação. O objetivo central foi ganhar tempo para conduzir uma transição estrutural relativamente segura, permitindo ao grupo revisar doutrinas, reorganizar cadeias operacionais e adaptar suas capacidades militares às novas exigências da guerra tecnológica contemporânea.


Trata-se de um processo lento e extremamente sensível, especialmente pelos numerosos casos descobertos de informantes e delatores dentro do ambiente da organização. Simultaneamente, buscou-se a continuidade do confronto controlado, sob pressão militar constante, vigilância intensiva e elevados custos políticos e humanos.


Os tradicionais ataques do Hezbollah contra os tanques Merkava também passaram a enfrentar limitações importantes nos últimos anos. Durante décadas, os mísseis antitanque, em especial o soviético Kornet, representou uma das principais ferramentas de dissuasão terrestre do grupo contra incursões blindadas israelenses. Contudo, a eficácia desse modelo de ataque foi parcialmente reduzida pelo avanço dos sistemas de proteção ativa empregados por Israel, em especial o sistema Trophy, um sistema de defesa ativa capaz de detectar, rastrear e interceptar projéteis antitanque antes do impacto.


Nesse contexto, o desenvolvimento e a expansão do uso de drones FPV (First-Person View), aeronaves pilotadas através de óculos ou monitores de realidade virtual, aparecem também como uma tentativa do Hezbollah de contornar parcialmente essa nova camada de proteção tecnológica israelense, explorando ângulos de ataque, saturação e formas de desgaste mais difíceis de serem neutralizadas pelos sistemas tradicionais de defesa ativa.


O emprego de drones militares pelo Hezbollah está longe de ser uma novidade. Seus primeiros registros operacionais remontam ao início dos anos 2000, quando o grupo já utilizava veículos aéreos não tripulados para missões de reconhecimento, vigilância e, posteriormente, ataques limitados. Contudo, o elemento verdadeiramente inovador observado na atual batalha no sul do Líbano não está simplesmente no uso de drones, mas na incorporação de novas doutrinas tecnológicas inspiradas diretamente nas transformações militares observadas na guerra entre Rússia e Ucrânia.


A principal novidade reside no crescente emprego de drones FPV conectados por cabos de fibra óptica. Diferentemente dos drones convencionais, que dependem de sinais de rádio suscetíveis à guerra eletrônica, esses sistemas operam por meio de um cabo físico ultrafino desenrolado durante o voo, mantendo conexão direta entre operador e dispositivo por vários quilômetros. Na prática, isso reduz drasticamente a eficácia das capacidades israelenses de interferência eletrônica (jamming), spoofing e bloqueio de sinais, que vinham desempenhando papel central na proteção das tropas israelenses contra drones convencionais.


Essa adaptação tecnológica possui implicações estratégicas relevantes. Ela demonstra não apenas a capacidade de aprendizado operacional do Hezbollah, mas também sua tentativa de responder assimetricamente à superioridade tecnológica israelense, buscando brechas em sistemas defensivos altamente sofisticados por meio de soluções relativamente baratas, descentralizadas e de difícil neutralização.


Nos últimos dois meses, esses drones passaram a atingir uma ampla variedade de alvos militares no sul do Líbano e na fronteira com Israel. Blindados, tanques, veículos de transporte, posições fortificadas, instalações de monitoramento, sensores e até concentrações de tropas foram alvos recorrentes desse novo padrão de ataque. Em muitos casos, a capacidade de transporte de explosivos é bastante reduzida por seu peso, entretanto, já é o bastante para ao menos inutilizar tais equipamentos e retirá-los do campo de batalha para manutenção. Estes drones possuem custo extremamente reduzido quando comparados aos alvos que atacam. Diversos componentes podem ser adquiridos comercialmente, adaptados localmente ou até produzidos por impressoras 3D, reduzindo drasticamente os custos logísticos e industriais de produção. Em outras palavras, equipamentos relativamente simples e baratos passaram a ameaçar estruturas militares milionários e ambientes altamente protegidos, reforçando uma lógica clássica da guerra assimétrica contemporânea.


Além dos impactos materiais e operacionais, estes drones vêm produzindo um efeito psicológico cada vez mais relevante sobre as tropas israelenses posicionadas na chamada “zona de segurança” estabelecida no interior da fronteira libanesa após o cessar-fogo. A proliferação dos drones alterou profundamente essa sensação de proteção. A possibilidade de um ataque repentino, silencioso e extremamente difícil de detectar passou a impor um estado permanente de vigilância e tensão psicológica entre soldados e unidades estacionadas na região. Por outro lado, foguetes e artilharia convencional geralmente produzem sinais, assinaturas e padrões relativamente previsíveis.


Nesse contexto, o emprego desses drones passou também a representar uma nova ferramenta de dissuasão do Hezbollah na dinâmica de confronto com Israel. Após a degradação parcial de parte de seu arsenal tradicional especialmente foguetes de longo alcance e mísseis antitanque , os FPV permitiram ao grupo reconstruir parcialmente sua capacidade de impor custos militares, operacionais e psicológicos ao adversário.


Em muitos casos, o simples fato de obrigar tropas a permanecerem permanentemente alertas já representa, por si só, um efeito estratégico importante, esse cenário produz um desgaste contínuo. Áreas consideradas relativamente seguras passam a viver sob ameaça constante de vigilância e ataque aéreo de baixa altitude. Mais do que destruir alvos, esses drones contribuem para corroer a sensação de controle absoluto do ambiente operacional por parte de Israel.

 
 
 

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