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Acordo de Defesa Conjunta de Meca: uma nova arquitetura securitária?

8 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 8 de ago.


Por Aramis Dawas


Em 07 de agosto de 2026, em meio à visita do presidente Recep Tayyip Erdoğan, da Turquia, e do primeiro-ministro ​Shehbaz Sharif, do Paquistão, ao Reino da Arábia Saudita, foi assinado o Acordo de Defesa Conjunta de Meca. O quadro legal do acordo, uma extensão de um tratado prévio entre Arábia Saudita e Paquistão do ano anterior, contém uma cláusula de defesa mútua, doravante vinculando securitariamente os três países. O ministro de relações exteriores turco, Hakan Fidan, afirmou que o arranjo equivale ao artigo quinto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e ainda revelou a intenção de expandi-lo, abrindo para o ingresso de outros atores regionais. Dessa maneira, para compreender os potenciais impactos desse acordo, esse texto tem como objetivo discorrer brevemente sobre o contexto regional no qual ele se insere e os fatores responsáveis por aproximar esses países.


Primeiramente, o Oriente Médio, desde o início da guerra em Gaza em outubro de 2023, atravessa transformações estruturais, produto da ofensiva regional israelense contra o Estado iraniano e a sua rede de aliados e da aspiração de se constituir enquanto hegemon. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com isso, vislumbrou a possibilidade de reorganizar a região, enfraquecendo a posição de Teerã e abrindo frentes na Palestina, Líbano, Síria, Iêmen e, finalmente, no próprio território iraniano. Contudo, é em setembro de 2025 que essa desestabilização regional se faz sentir nos Estados árabes do Golfo, aliados americanos de longa data. 


Em 9 de setembro de 2025, Israel realizou um ataque contra Doha, capital do Catar, alegando ter como alvo os líderes políticos do Hamas. Esse ataque teve graves consequências para o pensamento estratégico do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), bloco integrado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, EAU, Kuwait e Omã, haja vista que evidenciou uma vulnerabilidade frente a Israel e reforçou a dúvida acerca da disposição americana de defendê-los. Em resposta, em 17 de setembro, foi anunciado na capital saudita um acordo bilateral de defesa mútua saudita-paquistanês, estendendo o guarda - chuva nuclear de Islamabad e fornecendo meios alternativos de dissuasão para Riade. Esse acordo não é uma novidade, tendo em vista que Arábia Saudita e Paquistão já nutrem uma relação de cooperação militar antiga, marcada pelo apoio e treinamento paquistanês de oficiais e tropas do reino. Além disso, a aproximação em paralelo entre Israel e Índia entrelaça as dinâmicas securitárias do sul da Ásia com as do Oriente Médio, constrangendo os países a se balancearem.


A Turquia, por sua vez, desde a ascensão do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) ao poder em 2002, reorientou sua política externa para o Oriente Médio e Ásia Central, visando reocupar o papel de prestígio que possuía um século antes. No novo contexto médio-oriental iniciado em 2023, Ancara e Riade apresentam interesses crescentemente convergentes em uma série de teatros, como Síria, Somália e Sudão, além de intensificarem as relações estratégicas, como a sinalização de investimento saudita no caça KAAN e a produção de drones Baykar no reino. Acompanhando essa aproximação, em janeiro de 2026, surgiram rumores da possibilidade de ingresso turco ao acordo de defesa, mas a deflagração da Guerra do Irã deixou essa tratativa em segundo plano.


A Guerra do Irã, iniciada em 28 de fevereiro por Israel e EUA e ainda sem conclusão, vem reorganizando o Oriente Médio e indiretamente catalisou a aproximação entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, sobretudo pela convergência no desejo de estabilização regional. Essa questão incidiu sobretudo no caso saudita, por conta do Golfo não ser o responsável pela conflagração, tentando inclusive evitá-la, mas ter se tornado o alvo principal dos ataques iranianos, a partir do objetivo de Teerã de elevar os custos da guerra para constranger a um acordo de paz em termos favoráveis. Somado a isso, as monarquias receberam um apoio muito distante do esperado pelos EUA, histórico parceiro securitário, colocando em dúvida a estratégia de terceirização da defesa. Não à toa, os três atores foram responsáveis por mediar as tratativas de paz, assim como por advogarem intensamente pela desescalada militar e uma resolução permanente.


Outro ponto fundamental que a guerra levantou foi os limites e responsabilidades exatas decorrentes do acordo, haja vista que durante a conflagração o acordo saudita-paquistanês já estava em vigor e a Arábia Saudita foi alvo de sistemáticas retaliações iranianas. Alegadamente, 8000 soldados paquistaneses foram enviados ao território saudita, juntamente com mais de quinze caças F-17, respaldando a obrigação legal paquistanesa e o funcionamento do acordo. A entrada turca suscita ainda mais dúvidas acerca da disposição desses Estados em projetar poder militar em defesa mútua e quais os mecanismos acordados, complexificando a aliança. 


Independente destas questões, o acordo de fato ilustra a consolidação de novas aproximações regionais. Seguindo a análise de Firme (2026), desenham-se, no contexto do Oriente Médio, três principais alianças: i) um eixo emirati - israelense juntamente com a Índia, visível nos Acordos de Abraão, no grupo I2U2 e no Corredor Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC); ii) um eixo iraniano, composto pelo Ansar Allah no Iêmen, Hezbollah no Líbano, Hamas na Palestina e milícias iraquianas, mas fragilizado a partir da ofensiva israelense e da guerra em curso; iii) e, por fim, um eixo alinhando Turquia, Arábia Saudita e Paquistão. Assim, para compreender os reais impactos da formalização deste último eixo para a dinâmica do Oriente Médio, é necessário aguardar a resposta dos demais e avaliar a nova correlação de poder regional consequente.


Resumidamente, o Acordo de Defesa Conjunta de Meca entre Turquia, Paquistão e Arábia Saudita constitui a culminação de um processo de reorientações estratégicas, catalisadas pela instabilidade desencadeada em 2023 e, mais recentemente, pela Guerra do Irã. Nesse quadro, a expansão do acordo, passando a integrar Ancara, configura-se como um desdobramento direto da crescente convergência de interesses entre esses atores visando garantir estabilidade e prover segurança regional, sobretudo frente ao eixo emirati - israelense e iraniano. Indo além, o acordo tem o potencial de alterar a balança de poder, já que pressupõe, além da defesa mútua, o “fortalecimento de todos os aspectos da cooperação em defesa” entre três Estados com forte complementaridade, unindo a base industrial turca, o arsenal nuclear paquistanês e a capacidade de investimento saudita. Por fim, a possibilidade de ingresso de outros atores, como Egito, Jordânia e Catar, pode representar uma virada para a arquitetura securitária médio-oriental, historicamente permeada de intervenções e dependência externa.



Referências:


 
 
 

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